quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Brisa no meio da tempestade

Bons ventos sopraram nos últimos dias de 2011 e nos primeiros deste 2012, afastando um pouco as nuvens negras que insistiam em cobrir quase toda a Europa e que haviam deixado nebulosas as perspectivas dos países emergentes.

Embalados por esta brisa morna os governantes dos dezessete países que fazem parte da Comunidade Econômica Européia, e de mais nove países das proximidades, finalmente conseguiram se entender e fecharam um acordo de austeridade que, em última instância, criou uma espécie de sobrevida interessante para este importante bloco econômico.

Neste acordo, depois de muita negociação, os governantes de 26 dos 27 países europeus concordaram em aprofundar a união fiscal, ajudar os países com maiores dificuldades e, tão logo seja possível, iniciar um processo de estímulo econômico que possa levar a região a um novo e necessário ciclo de crescimento.

Sem cair no exagero demasiado isto foi uma espécie de presente de natal da Europa para o mundo que, em última análise, significa dizer que, a não ser que o calendário maia esteja certo, o mundo dificilmente acabará neste 2012. Ufa!

Enquanto isto, aqui pelas terras tupiniquins, mais ou menos ao mesmo tempo, as autoridades econômicas, logo após oficializar que o País registrou crescimento zero em seu PIB no terceiro trimestre,  praticamente deram por encerrada a temporada de caça ao perigo de retorno do malvado dragão inflacionário, iniciando processo de gradual desmontagem das medidas macroprudenciais que dificultaram o crédito e, por via de consequência, o consumo e o crescimento do mercado no fim de 2011.

“Antes tarde do que nunca”, analisaram os economistas, boa parte deles enfatizando que isto poderia ter ocorrido um pouquinho mais cedo. Neste ponto, inclusive, antes de comemorar um provável retorno do crescimento das vendas, sempre é bom lembrar que um dos maiores problemas do Brasil, agora, será captar, no Exterior, investimentos que possam balizar um possível aumento da disponibilidade do crédito. Isto porque, segundo  o BIS, Banco de Compensações Internacionais, um dos principais efeitos da crise atual é justamente a seca na liquidez do crédito em razão do endurecimento dos mercados.

O nosso setor automotivo pátrio também fechou o ano de forma positiva, com novo recorde de produção e vendas e projeta para 2012 um novo crescimento de 2% na produção e 3% nas vendas, com novo recorde. E também inicia um novo ciclo de grandes investimentos, o terceiro da história do setor no País. Ou seja: a ideia é continuar olhando sempre para a frente sem medo.

Artigo publicado na edição 269 da Revista AutoData, janeiro de 2012.

Feliz 2012

Poucas pessoas sabem, mas tenho uma filha que tem quase a mesma idade de AutoData. As duas nasceram em 1992, com poucos meses de diferença, e ambas provocaram - e ainda provocam - muita influência na minha vida deste então.

Neste fim de 2011, minha filha, hoje já crescida e com quase 20 anos de idade, está dando um passo muito importante na sua vida e prestando vestibular. Ela quer seguir carreira na área de serviço social. Ao mesmo tempo, AutoData orgulha-se de ao longo destas últimas duas décadas, ter amadurecido bastante e de ter se transformado em fonte de referência empresarial e jornalística para todo o setor automotivo brasileiro.

Estes últimos vinte anos foram realmente incríveis. Profissionalmente porque todas as milhares de horas que dediquei à AutoData e ao estudo do setor automotivo brasileiro neste período foram, pelo menos para minha pessoa, muito prazerosos na maior parte das vezes. E pessoalmente porque acredito que o Brasil de hoje é muito diferente daquele Brasil em que eu vivia antes da minha filha chegar ao mundo.

Comecei a notar outro dia, quando eu e minha filha discutíamos eventuais situações que poderiam servir como base para o tema de redação do vestibular. Conversávamos principalmente sobre a crise econômica mundial e a gravidade do cenário europeu. E eu tentava fazê-la entender o que está acontecendo lá fora e, principalmente, que o Brasil, no meu ponto de vista, não será tão afetado economicamente pelos problemas internacionais, exatamente como aconteceu em 2008.

Tentei fazê-la ver que, ao contrário de Itália, Espanha e Grécia, por exemplo, que estão sendo praticamente obrigadas a trocar seus comandos políticos para tentar organizar o seu futuro, o Brasil colhe agora os frutos de quase dezoito anos de estabilidade política e econômica graças àquilo que considero como competente trabalho de dois senhores: Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Cada um deles a seu tempo, tiveram o mérito de colocar o País no rumo certo, tanto em termos econômicos quanto sociais.

E isto é realmente o que eu penso! Mais dia, menos dia, a Europa vai acabar se entendendo. O mesmo vai acontecer com os Estados Unidos e sua dívida gigantesca. E tudo isto acontecendo, o mundo certamente não vai acabar, o Brasil vai continuar trilhando seu caminho de desenvolvimento e minha filha vai entrar na faculdade.

Tenho certeza que no ano que vem vou ter muito orgulho dos dois, tanto da minha filha quanto do Brasil. E sei que como pai-coruja e orgulhoso brasileiro que sou, vou viver um grande ano, repleto de alegria e prosperidade, que é exatamente o que desejo a todos neste último artigo do ano.


Artigo publicado na edição 268 da Revista AutoData, dezembro de 2011.

O boi, atolado na abóbora

Confesso que deixei o Congresso Perspectivas 2012 realizado em outubro, pela AutoData Editora, em São Paulo, com um certo gosto de boi com abóbora na boca. Ou até pior: com a estranha sensação de que o tal do boi pode estar meio que atolado bem no meio da abóbora no que se refere ao velho problema da competitividade do setor automotivo brasileiro.

Para quem não lembra, boi com abóbora é aquela expressão que foi utilizada por Paulo Butori, presidente do Sindipeças, na última edição do Congresso Perspectivas, para definir um ano sem graça e sem emoção que é, em síntese, o que ele espera para o setor automotivo no ano que vem, sem grandes novidades com relação a este 2011 que está terminando com, no máximo, possibilidade de crescimento moderado de 3% a 5%. Este tema da necessidade de maior competitividade da nossa indústria automotiva reinou no painel dos sistemistas do Congresso AutoData, que reuniu os maiores e mais importantes produtores de autopeças instalados no Brasil e mais o próprio Paulo Butori.

A conclusão a que se chegou é que tudo está crescendo – as vendas das montadoras, das empresas de autopeças e, também, a arrecadação de impostos –,  mas que a equação não fecha em um ponto central, que é o fato de que ainda não conseguimos operar de modo eficiente com relação aos países que concorrem conosco por um lugar ao sol, ou por mais espaço, no mundo automotivo e que, em razão disto, continuamos perdendo investimentos importantes para estas outras bases industriais.

Novamente as análises giraram em torno de temas que discutimos já há longos anos, tais como burocracia, câmbio, reformas trabalhista e tributária e infraestrutura.

Parece que nada andou e, o que é pior, a perspectiva é que nada andará no futuro próximo.

A responsabilidade por encaminhar decisões e soluções continua nas mãos do governo que, pelo menos por enquanto, nada faz a respeito e nem mostra que tem grande interesse pelo assunto.

E o que é mais preocupante: a algaravia existente dentro dos próprios elos da cadeia produtiva automotiva parece demonstar que não há muito consenso.

Perguntado a respeito no mesmo Congresso o presidente da Anfavea, Cledorvino Belini, disse que as reivindicações do setor a respeito já são conhecidas mas que, infelizmente, a própria cadeia de fornecedores ainda tem muito o que caminhar em termos de produtividade e que isto terá que ser resolvido pelas próprias empresas.

O pensamento é lógico, mas é, ao mesmo tempo, cruel.

Mudando um pouco de assunto: impressionante, no meu ponto de vista, o tônus da Fenatran, Feira Nacional dos Transportes, realizada no fim de outubro, em São Paulo. Evento de primeiro mundo que efetivamente coloca o Brasil em posição de destaque no universo dos produtores mundiais de veículos de transporte.

Artigo publicado na edição 267 da Revista AutoData, novembro de 2011.

Marcha à ré

No céu – se é que eles conseguiram um lugarzinho por lá – os presidentes militares devem estar, neste momento, aplaudindo de pé o aumento do IPI, Imposto sobre Produto Industrializado, para os veículos importados.

Foi realmente uma atitude digna deles que representou, no meu ponto de vista, um retrocesso de pelo menos vinte anos na forma como foi pensada e trabalhada a política econômica brasileira nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, também lá por perto, o tal do Lafer, aquele mesmo que inventou a curva famosa que mostra que o crescimento do mercado pode compensar eventuais perdas de reduções tributárias e, no caso, dos problemas vividos pela indústria automobilística brasileira, de competitividade frente à concorrência internacional, deve ter colocado as mãos na cabeça.

A presidente Dilma que me desculpe, mas, ao contrário do que tem tentado explicar, não é com atitudes protecionistas como esta que se incentiva, no meu ponto de vista, a indústria nacional ou se protege os empregos locais.

O maior ou talvez único prejudicado desta história é o consumidor. A conta, na verdade, sobrou toda para ele.

“Também, quem mandou tentar ser espertinho e comprar carros que são mais baratos em razão de serem fabricados em países que têm melhores condições de competitividade que o Brasil!”, devem estar pensando os autores da proeza.

Sátiras à parte, acho que não é necessário ser economista para perceber que a fórmula correta era aquela anunciada anteriormente, que reduzia os tributos para as empresas que se adaptassem às exigências locais. Esta sim deixaria a nossa indústria um pouco mais competitiva para tentar participar quase que em pé de igualdade pelo menos nos mercados sul-americanos.

Obviamente as montadoras e os fabricantes de autopeças instalados no Brasil estão comemorando a medida anunciada pelo Governo Federal dia 15 de setembro. Os primeiros porque o Brasil hoje é reconhecidamente um dos mercados com maior potencial de desenvolvimento em todo o mundo e quem já está por aqui leva óbvia vantagem.

E os segundos porque a exigência de 65% de conteúdo local fará diminuir a pressão e a chantagem comercial feita o tempo todo pelos compradores das montadoras utilizando-se como parâmetro de comparação as peças importadas.

O jogo agora é outro.

Algumas empresas já começaram, inclusive, a conversar com suas matrizes para investir na ampliação de suas capacidades produtivas locais.

O grande problema ainda a ser resolvido é que como o grosso das importações de veículos é feita pelas próprias montadoras por meio dos acordos automotivos com México e Mercosul, a tal da preservação dos empregos poderá acontecer nos países vizinhos, como Argentina e Uruguai, com o Brasil ficando mais uma vez a ver navio ou, no caso, automóveis.

Pelo menos um alívio.

Em minhas andanças por aí ainda não ouvi nenhuma montadora anunciar planos para relançar Del Reys, Monzas, Tempras, Santanas, Brasílias ou coisas que tais...


Artigo publicado na edição 266 da Revista AutoData, outubro de 2011.

O futuro passa por aqui

O mundo quase acabou novamente em agosto. As bolsas despencaram, inclusive a de São Paulo, e todos se lembraram dos terríveis últimos três meses de 2008. Enquanto isto acontecia, a China se candidatava cada vez mais ao posto de nova potência econômica mundial. Estaria nascendo uma nova ordem mundial? Com Europa balançando, Estados Unidos rebaixado e Japão tentando não naufragar após tsunami, eu diria que ainda não. Está mais parecendo uma desordem que uma nova ordem. Enquanto os velhos atores se aposentam, os novos protagonistas, incluindo China, ainda não apresentaram seus roteiros com contundência.

No caso da China, com sua brutal escala de produção local, suas fábricas estão despejando produtos para vários países ao redor do mundo. E como o apetite de consumo destes países pode estar patinando, as projeções futuras encontram-se um tanto nervosas. É óbvio que não acontecerá crise por lá. Mas o ritmo de crescimento verificado nos últimos anos poderá não ser mais o mesmo nos próximos anos se estes mercados não reagirem rapidamente. E isto poderá ser um problema para países que, como o Brasil, tem a China como um importante comprador de suas commodities.

Continuando no Brasil, que também é visto como uma das mais promissoras novas economias, vamos tentando fazer nossa lição de casa. Também tivemos problemas com as bolsas, mas mais em razão da grande liquidez das nossas empresas que em função de crise. É aqui que os investidores fazem dinheiro rápido quando precisam.

Neste sentido, pouco antes do mergulho mundial das bolsas, o governo anunciou o plano econômico Brasil Maior, um pacote de bondades que objetiva ajudar alguns setores da indústria brasileira – automotivo incluído –, a ganhar poder de competitividade e garantir sobrevivência no futuro. E agora, mais recentemente, o governo voltou às manchetes anunciando corte de despesas de R$ 10 bilhões neste ano, em um primeiro grande passo rumo ao que os economistas sempre recomendaram de reduzir as despesas governamentais e abrir caminho para redução de juros e diminuição de tributos.

Pena que o Brasil Maior vai resolver o problema no futuro um pouco mais distante e a redução das despesas referese somente a 2012. No primeiro caso deveria pesar um pouco mais também a situação de curto prazo e, no segundo, estender o corte de despesas por pelo menos mais dois anos.

Para o setor automotivo em particular, o problema refere-se ao fato de estarmos perdendo investimentos de montadoras e autopeças para países como México, por exemplo. Precisamos repensar de imediato as políticas trabalhista e cambial.

A mão de obra brasileira hoje é cara e, frente às atuais negociações, caminha para ficar ainda mais. E no caso do câmbio parecemos o soldado português da velha piada: o mundo trabalha com fixo e  só o Brasil fica no flutuante. Será que estamos certos? Mesmo assim, vamos trabalhando full em praticamente todos os segmentos. Estas sugestões referem-se ao fato de que, se tivermos os parâmetros adequados, cresceremos ainda mais. Inegavelmente o futuro passa por aqui e está à disposição de quem quiser arregaçar a manga e trabalhar para buscá-lo.

Artigo publicado na edição 265 da Revista AutoData, setembro de 2011.

Síndrome de Macunaíma...

É certo que o setor automotivo está se movimentando para tentar resolver seus problemas de competitividade no Brasil. Também é certo que há muito tempo não se via tamanha sinergia de opiniões entre empresas e governo neste tema. Mas mesmo assim, o futuro segue incerto e preocupante. Seremos um grande produtor ou somente um grande mercado?

Esta resposta é quase que impossível de ser obtida em consenso. Tenho assistido surpreso várias discussões sobre a viabilidade futura do setor automotivo e, porque não dizer, do próprio Brasil. E confesso que a percepção que estou tendo de que os próprios empresários e executivos parecem não acreditar na viabilidade brasileira tem me preocupado muito. 

São várias e até teoricamente consistentes as razões que tenho ouvido para explicar isto. Alguns reclamam dos problemas no mercado internacional provocados pelo câmbio pouco favorável. Outros da competitividade artificial provocada pela política trabalhista quase que escravagista dos chineses. 

Mas o grande e maior problema reside no fato de que a maioria quase esmagadora demonstra falta de crença de que, em algum momento, o governo brasileiro terá coragem para resolver os problemas relativos às políticas tributária e trabalhista que tanto atravancam o desenvolvimento.

A incoerência destas conversas é que quase todas as reclamações normalmente vêm seguidas de notícias e registros de recordes de produção e vendas. A impressão que se tem é que o setor nunca foi tão próspero no Brasil mas que, mesmo assim, o futuro será desastroso.

Na verdade acho que o grande problema do Brasil reside no fato de que quase todas estas pessoas que tenho ouvido reclamam muito, usufruem mais ainda e pouco fazem pelo futuro. Na verdade, não existe por aqui uma cultura histórica que nos faça defender com um pouco mais de orgulho e ênfase os interesses nacionais. Os chineses pensam diferente e por isto crescem. Os americanos historicamente também sempre mostraram atitude diferenciada. E até nossos hermanos argentinos têm mais orgulho que nós. 

Na China, hoje, o que importa é o desenvolvimento econômico do país e de sua sociedade. E as regras e teorias econômicas vão sendo atropeladas para que os objetivos sejam alcançados. Quase da mesma forma, na crise de 2008 o governo americano não titubeou em abrir os cofres e socorrer as empresas que estavam em dificuldades, General Motors dentre elas.  E nossos vizinhos portenhos simplesmente vivem tentando dar um passa moleque nas regras do Mercosul.

O Brasil tem tudo para dar certo. É uma das nações mais ricas do mundo em recursos naturais e seu povo é honesto e trabalhador. Falta, porém, vontade política para o País tornar-se viável de vez, tanto de governantes como de empresários. 

Se eu tivesse que escolher um culpado pelo comodismo brasileiro eu diria que um sério candidato seria D. Pedro, o primeiro, aquele mesmo que detrás daquela moitinha nos altos do Ipiranga proclamou a independência do Brasil sem fazer o mínimo esforço. Já naquela ocasião foi tudo muito fácil. Portugal quase nem reclamou do fato.

Ou quem sabe a culpa tenha sido de Mário de Andrade. Afinal de contas, ele inventou Macunaíma, uma espécie de herói brasileiro cuja principal virtude era a preguiça e que passava seus dias deitado na rede esperando tudo que necessitava cair do céu. E qualquer semelhança é mera coincidência...

Artigo publicado na edição 263 da Revista AutoData, julho de 2011.