É certo que o setor automotivo está se movimentando para tentar resolver seus problemas de competitividade no Brasil. Também é certo que há muito tempo não se via tamanha sinergia de opiniões entre empresas e governo neste tema. Mas mesmo assim, o futuro segue incerto e preocupante. Seremos um grande produtor ou somente um grande mercado?
Esta resposta é quase que impossível de ser obtida em consenso. Tenho assistido surpreso várias discussões sobre a viabilidade futura do setor automotivo e, porque não dizer, do próprio Brasil. E confesso que a percepção que estou tendo de que os próprios empresários e executivos parecem não acreditar na viabilidade brasileira tem me preocupado muito.
São várias e até teoricamente consistentes as razões que tenho ouvido para explicar isto. Alguns reclamam dos problemas no mercado internacional provocados pelo câmbio pouco favorável. Outros da competitividade artificial provocada pela política trabalhista quase que escravagista dos chineses.
Mas o grande e maior problema reside no fato de que a maioria quase esmagadora demonstra falta de crença de que, em algum momento, o governo brasileiro terá coragem para resolver os problemas relativos às políticas tributária e trabalhista que tanto atravancam o desenvolvimento.
A incoerência destas conversas é que quase todas as reclamações normalmente vêm seguidas de notícias e registros de recordes de produção e vendas. A impressão que se tem é que o setor nunca foi tão próspero no Brasil mas que, mesmo assim, o futuro será desastroso.
Na verdade acho que o grande problema do Brasil reside no fato de que quase todas estas pessoas que tenho ouvido reclamam muito, usufruem mais ainda e pouco fazem pelo futuro. Na verdade, não existe por aqui uma cultura histórica que nos faça defender com um pouco mais de orgulho e ênfase os interesses nacionais. Os chineses pensam diferente e por isto crescem. Os americanos historicamente também sempre mostraram atitude diferenciada. E até nossos hermanos argentinos têm mais orgulho que nós.
Na China, hoje, o que importa é o desenvolvimento econômico do país e de sua sociedade. E as regras e teorias econômicas vão sendo atropeladas para que os objetivos sejam alcançados. Quase da mesma forma, na crise de 2008 o governo americano não titubeou em abrir os cofres e socorrer as empresas que estavam em dificuldades, General Motors dentre elas. E nossos vizinhos portenhos simplesmente vivem tentando dar um passa moleque nas regras do Mercosul.
O Brasil tem tudo para dar certo. É uma das nações mais ricas do mundo em recursos naturais e seu povo é honesto e trabalhador. Falta, porém, vontade política para o País tornar-se viável de vez, tanto de governantes como de empresários.
Se eu tivesse que escolher um culpado pelo comodismo brasileiro eu diria que um sério candidato seria D. Pedro, o primeiro, aquele mesmo que detrás daquela moitinha nos altos do Ipiranga proclamou a independência do Brasil sem fazer o mínimo esforço. Já naquela ocasião foi tudo muito fácil. Portugal quase nem reclamou do fato.
Ou quem sabe a culpa tenha sido de Mário de Andrade. Afinal de contas, ele inventou Macunaíma, uma espécie de herói brasileiro cuja principal virtude era a preguiça e que passava seus dias deitado na rede esperando tudo que necessitava cair do céu. E qualquer semelhança é mera coincidência...
Artigo publicado na edição 263 da Revista AutoData, julho de 2011.
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