quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Marcha à ré

No céu – se é que eles conseguiram um lugarzinho por lá – os presidentes militares devem estar, neste momento, aplaudindo de pé o aumento do IPI, Imposto sobre Produto Industrializado, para os veículos importados.

Foi realmente uma atitude digna deles que representou, no meu ponto de vista, um retrocesso de pelo menos vinte anos na forma como foi pensada e trabalhada a política econômica brasileira nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, também lá por perto, o tal do Lafer, aquele mesmo que inventou a curva famosa que mostra que o crescimento do mercado pode compensar eventuais perdas de reduções tributárias e, no caso, dos problemas vividos pela indústria automobilística brasileira, de competitividade frente à concorrência internacional, deve ter colocado as mãos na cabeça.

A presidente Dilma que me desculpe, mas, ao contrário do que tem tentado explicar, não é com atitudes protecionistas como esta que se incentiva, no meu ponto de vista, a indústria nacional ou se protege os empregos locais.

O maior ou talvez único prejudicado desta história é o consumidor. A conta, na verdade, sobrou toda para ele.

“Também, quem mandou tentar ser espertinho e comprar carros que são mais baratos em razão de serem fabricados em países que têm melhores condições de competitividade que o Brasil!”, devem estar pensando os autores da proeza.

Sátiras à parte, acho que não é necessário ser economista para perceber que a fórmula correta era aquela anunciada anteriormente, que reduzia os tributos para as empresas que se adaptassem às exigências locais. Esta sim deixaria a nossa indústria um pouco mais competitiva para tentar participar quase que em pé de igualdade pelo menos nos mercados sul-americanos.

Obviamente as montadoras e os fabricantes de autopeças instalados no Brasil estão comemorando a medida anunciada pelo Governo Federal dia 15 de setembro. Os primeiros porque o Brasil hoje é reconhecidamente um dos mercados com maior potencial de desenvolvimento em todo o mundo e quem já está por aqui leva óbvia vantagem.

E os segundos porque a exigência de 65% de conteúdo local fará diminuir a pressão e a chantagem comercial feita o tempo todo pelos compradores das montadoras utilizando-se como parâmetro de comparação as peças importadas.

O jogo agora é outro.

Algumas empresas já começaram, inclusive, a conversar com suas matrizes para investir na ampliação de suas capacidades produtivas locais.

O grande problema ainda a ser resolvido é que como o grosso das importações de veículos é feita pelas próprias montadoras por meio dos acordos automotivos com México e Mercosul, a tal da preservação dos empregos poderá acontecer nos países vizinhos, como Argentina e Uruguai, com o Brasil ficando mais uma vez a ver navio ou, no caso, automóveis.

Pelo menos um alívio.

Em minhas andanças por aí ainda não ouvi nenhuma montadora anunciar planos para relançar Del Reys, Monzas, Tempras, Santanas, Brasílias ou coisas que tais...


Artigo publicado na edição 266 da Revista AutoData, outubro de 2011.

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